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quarta-feira, 30 de maio de 2012

Amigos
O site da Biblioteca Nacional com jornais antigos tem um novo enderêço. Por sua importância para as nossas pesquisas informo a todos. 
Vale a pena excursionar por ele. É uma viagem ao passado. Muitas histórias que nos chegaram distorcidas por cronistas tem outras versões nesses jornais. A política era braba como agora. Dependendo do dono do jornal, como hoje, as versões são as mais diversas.Santos viram diabos e o contrário.

http://memoria.bn.br/hdb/periodicos.aspx

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Saudade.

Saudade.

De Nati Cortez para Celina. *

Estás longe de mim, sinto saudade,
Uma saudade amarga, bem cruel,
Estás curtindo esta dor, noutra cidade,
Com ressaibos transcendendo fel.
 Onde está aquela felicidade
Quando nos teus lábios parecia mel?
Tudo acabou por conta da maldade,
Que tudo transformou num aranzel.

Choras... Choro... O coração partido,
Esperando que Deus conserte tudo,
Quando chegar o dia prometido.
Então acabará toda tristeza,
O céu ficará uma beleza,
Quando Jesus gritar: “eu não sou mudo”!
Natal, 25,10. 1981
Nati Cortez.
·         Dona Celina Maia, tinha dois filhos quando morava na rua José Pinto, Cidade Alta: Marco Aurélio, professor do IFRN, e Pedro. Era uma grande amiga de Maria Natividade Cortez Gomes e da família. Reside no bairro de Neópolis, em Natal/RN.
Outra amiga dela era dona Lilia Galvão que foi morar no Rio de Janeiro. Nati e Lilia mantiveram vasta correspondência desde os anos 50. Encontramos várias cartas e poemas de dona Lilia, datados de 1959.


Em 16 de janeiro de 1959, Nati Cortez escreveu “És tão feliz!...”



És tão feliz!...Sorris a toda hora.
E a sorrir meu coração consolas,
Antes, sofria, sorrindo vivo agora,
Não tenho mais aquelas mágoas tolas.

És tão feliz! Teu coração palpita,
Só de amor, de amor e de amor.
Neste jardim és a rosa mais bonita,
Foi nesta rosa que eu afoguei a minha dor.

És tão feliz! Sorris até demais,
Antes, sozinha, em cada canto,
Agora, alegre, deixaste para trás
As tuas dores, as lágrimas do teu pranto.

Se és feliz, em também sou, Lilia.
Canta-se, eu também canto com calor.
Quem nos uniu, por certo, foi Maria,
Somos felizes, vamos vier para o amor.
                   ***
“Versos dedicados a amiga Lilia Galvão, em resposta dos que ela me ofertou”, escreveu Maria Natividade Cortez Gomes, em Natal, 16 de janeiro de 1959, no original manuscrito. Dias antes, dona Lilia, escreveu “Sofra com amor”:



Sofra com fé! Sofra com amor.
Lembre-se que Jesus sofreu também na cruz.
Se hoje você sofre e sente tanta dor
Amanhã vai morar ao lado de Jesus.

Sofra com fé, lembre-se de Jesus
Ele sofreu por nós, por nosso amor
Porque não carregarmos também a nossa cruz?
Se por todos nós ele sofreu tamanha dor?

Sofra com fé, lembre-se de Maria
Que mais sofreu vendo o filho na cruz
Se hoje você sofre, se sente tanta agonia
Um dia você vai morar ao lado de Jesus.
Amém. “Lilia”.

sábado, 19 de maio de 2012

MEMÓRIA.



Quiseram  queimar livros de Cascudo.


Luiz Gonzaga Cortez.

Nos anos 60, em Natal, houve duas tentativas de queima de livros, artigos e  revistas com textos do folclorista integralista Luís da Câmara Cascudo. Uma foi abortada por populares, em 1962, em plena rua João Pessoa, nas proximidades da praça da Imprensa, esquina com a avenida Rio Branco, hoje denominada praça Presidente Kennedy. No local, a Prefeitura Municipal de Natal estava realizado uma Feira de Livros, com várias barracas e estandes instalados pelas poucas livrarias da cidade e instituições públicas e privadas. A idéia do prefeito Djalma Maranhão era prestigiar a cultura local e nacional, com a presença de escritores e intelectuais de renome nacional. O Governo do Estado era parceiro do evento cultural. O governador Aluizio Alves mandou convidar Cascudo, um dinartista juramentado, a participar do encontro de escritores. Cascudo relutou, mas terminou indo para a feira do livro, uma verdadeira festa popular. A feira durou vários dias com exposições, palestras, espetáculos artísticos-musicais variados e o povão lotava o cruzamento do centro da cidade.
Mas enquanto as pessoas compravam livros, revistas e discos e se divertiam com os espetáculos, um grupo de estudantes contestadores articularam a instalação de uma grande fogueira no Grande Ponto. Comandavam o incendiário grupo: Manuel Filgueira Filho, vulgo Pecado, Francisco Canindé do Nascimento, vulgo Pelé, Hélio Lins, vulgo Hélio Brucutu Ao invés de paus e toras de lenhas, o grupo reuniu diversos livros de Luís da Câmara Cascudo e colocou-os defronte a loja de Nestor, um comerciante magro e alto, já falecido, dono de um ponto comercial (lojinha de artesanato)  na “Galeria do Grande Ponto” ( no primeiro andar funcionou o Comitê Eleitoral de Djalma Maranhão, na campanha de 1960), o primeiro centro comercial de Natal. Enquanto colocavam os livros para serem queimados em praça pública, os estudantes, também conhecidos como anarquistas, comunistas ou, pra usar um termo mais moderno, porra-loucas, faziam discursos inflamados contra o nazi-fascismo, os gorilas, a extrema-direita, o escambau. E diziam que Cascudo tinha sido integralista,  “uma doutrina fascista”, etc, etc, e que os seus livros deveriam ser queimados. E tome falação. Outros gritavam, açulados pelos promotores do evento, “queima! “, “queima! “.
O aposentado João Pegado de Oliveira Ramalho, ex-funcionário dos Correios de Natal,  estava na feira do livro e viu toda a movimentação e correu para o local onde o exótico grupo de protestos berrava contra a obra literária de Câmara Cascudo. Outra testemunha: o aposentado Gilson Guanabara de Souza, 58, o popular “GG”, irmão do ex-comunista Gileno Guanabara de Souza, que residente no conjunto Candelária. Gilson não se lembra da data, mas João Ramalho disse que era o dia dos estudantes, 11 de agosto de 1962, e que uma passeata tinha acabado de chegar ao local para os discursos tradicionais. Ramalho lembra que muitos alunos da Escola Técnica de Comércio, fundada por Ulisses Celestino de Góis, estavam na passeata. “Estavam lá, Gilson Guanabara, “Galego da Cimaferro”, Ivan, sargento da Aeronáutica e outros cujos nomes não me recordo. Os estudantes queriam queimar as obras de Cascudinho, tenho certeza absoluta. Os discursos eram inflamados, onde hoje é a Praça Kennedy, mas que tinha outro nome. Surgiram vozes contra essa idéia , as coisas esfriaram, novas vozes surgiram e o ato não foi concretizado. Eu mesmo disse: “Isso não é maneira de protestar”. Pelo que eu pude constatar, queimar os livros de Cascudo porque ele tinha sido integralista”. Eu achei um absurdo”, disse João Pegado de Oliveira Ramalho, pesquisador da história do seu município, Campo Grande.
Já Gilson Guanabara que apontou Pelé, Hélio Brucutu e Pecado como os responsáveis pelo atiçamento dos estudantes para a queimação, em meados de maio, no dia 5 de junho de 2.000 já mudava a sua declaração, no sentido de que a manifestação foi heterogênea e “não deu para se saber quem foi que deu a idéia de queimar livros de Cascudo e os de autores considerados subversivos da feira”patrocinada pela Prefeitura Municipal. Mas confirmou a participação do trio no evento. “Sou contra queimar qualquer livro. Arrependi-me de ter enterrado muitos livros no quintal da minha casa, na rua Gonçalves Ledo, depois do golpe militar de 64. Perdi-os todos. Quanto a esse episódio na feira do livro, havia um clima de apreensão naquela época, pois temia-se que a direita queimasse a exposição e os estandes todos e culpar os comunistas depois. Então, elementos da esquerda ficavam de prontidão lá para evitar isso. Mas considerei uma afronta querer queimar livros de Cascudo”, disse Gilson Guanabara. Ex-aluno da Escola Técnica de Comércio, Gilson disse que chegaram a queimar uma árvore natalina, armada pela Prefeitura, no Grande Ponto, nas caladas da noite, e duas palhoças da campanha “De Pé no Chão Se Aprende a Ler”em Brasília Teimosa e na avenida Bernardo Vieira.
Apesar de Câmara Cascudo já ser considerado um nome de importância na cultura nacional, o ato dos estudantes não redundou em luta corporal, pois, após os discursos de alguns líderes estudantis de esquerda, todos foram para as suas casas. A manifestação juvenil não provocou aquilo que alguns escritores achavam, isto é, que qualquer palavra contra Cascudo gerava uma forte reação contrária, como pensava o falecido jornalista e escritor potiguar Genival Rabelo que escreveu que “Nísia Floresta e Cascudinho são os maiores símbolos da inteligência potiguar” e “... dizer qualquer coisa contra Cascudinho é sujeitar-se a sair apanhando” (Françoise, p. 175, edição do autor, Rio de Janeiro, 1993).
Segundo tentativa
Ao longo de 1968, o ano das manifestações estudantis e das passeatas de protestos nas principais capitais do Brasil, no já chamado ensaio geral para a resistência armada ao regime militar, diversos poetas e artistas plásticos natalenses atuavam no “ movimento do poema/processo”, dando seguimento a inusitada manifestação realizada pelo caicoense Moacy Cirne e um punhado de poetas de vanguarda, defronte ao Teatro Municipal do Rio, na Cinelândia. Os poetas concretistas rasgaram livros de poetas consagrados, “como protesto contra a mesmice lírica da poesia brasileira e para lançar de maneira radical o movimento do poema/processo”, relembra o jornalista Dailor Varela, natalense radicado em Monteiro Lobato, São Paulo.
Em Natal, a imprensa deu cobertura às pretensões dos nossos poetas concretos que anunciaram a realização de um ato de protesto igual ao da Cinelândia, aqui apelidado de  happening (uma gíria americana que eu não sei e não quero saber traduzir), em pleno Grande Ponto. “Iriamos promove-lo nos mesmos moldes  e objetivos de  espantar pela radicalidade, rasgando poetas potyguares e nacionais consagrados. O anúncio provocou um tumulto cultural na aldeia literária e cultural de Natal como jamais houve qualquer evento cultural que explodisse, espantasse toda a cidade. Guardadas as devidas proporções e época: como a Semana de Arte Moderna de 1922, em Sampa. Nosso happening derrubou as prateleiras culturais da cidade. Tanto que se fala nisso até hoje”, afirma Dailor Varela ( por escrito, lembre-se).
O bafáfá foi grande. A cidade entrou em polvorosa. A conservadora Natal agitou-se. O jornalista Sanderson Negreiros, um misto de neo-liberal e conservador, admirado do folclorista Luís da Câmara Cascudo, escreveu um artigo no Diário de Natal contra a anunciada manifestação radical. “Baixei o pau neles e considerei aqui uma maluquice sem pé nem cabeça que terminou não dando em nada”, disse Sanderson  Negreiros. O evento foi anunciado por Dailor, Falves da Silva, artista plástico e gráfico, Anchieta Fernandes, cinéfilo, Alexis Gurgel, jornalista, Marcos Silva, pintor e compositor (hoje professor da USP), Moacy Cirne, poeta,que vivia entre Natal e o Rio de Janeiro (ele é de uma abastada família de comerciantes de Caicó e Natal) e outros “poetas de vanguarda”. Conta Dailor, que a imprensa badalou a intenção dos poetas durante vários dias. Ele trabalhava na “Tribuna do Norte” e era editor de cultura, onde publicava matérias com temas de vanguarda, como a legalização da “cannabis sativa”. “O uso da maconha foi eu quem defendi”.
Pelas suas posições avançadas, Dailor diz que foi ameaçado de morte em pleno Grande Ponto pelo falecido poeta místico Walfran Queiroz, e foi objeto de uma matéria publicada na edição de 8/2/1968, em TN, com o seguinte título: “Poeta quadrado”ameaça de morte queimador de livros”. (Infelizmente, eu não li essa matéria porque estava prestando serviço militar obrigatório noExército).
“Aí um dia, eu fui chamado para uma “conversa” com o delegado Hernani Hugo, que me parece que era secretário de Segurança Pública ou coisa assim ( não, Dailor, era delegado do DOPS, Delegacia de Ordem Política e Social). Ele era na época um tipo cinematográfico que andava de branco. Fui lá e ele foi gentil comigo,talvez pelo fato de eu ser um jornalista conhecido. Me falou do happening e que não iria admitir que se queimasse obra do Mestre Cascudo e que se isso acontecesse todo mundo iria em cana. Aí expliquei pra ele: jamais a gente tinha anunciado que iria queimar obras de Cascudo. Mesmo porque não tinha sentido. Nosso objetivo era esculhambar com poetas líricos e decadentes e Cascudo era um folclorista, um estudioso da cultura brasileira”, afirma Dailor Varela. E tudo terminou nesse dia. Não houve o fogaréu boatado pelos editores. “A gente resolveu que o happening em si já tinha acontecido. Com mais espanto do que se ele tivesse sido realizado mesmo. O auê que a gente queria aconteceu, espantou a cidade”.
Atualmente editando um bonito e articulado jornal literário em São José dos Campos/SP, o jornalista Dailor Varela disse que nenhum poeta de vanguarda de Natal declarou que iriam queimar obras de Cascudo e que isso foi invenção dos jornais “para vender mais jornal, por lenha na fogueira e deixar a cidade revoltada contra nós”.
O gráfico e poeta Francisco Alves da Silva, Falves, contou-me outra versão na noite do dia 7.6.2000, no Bar de Lula, em Candelária: “De fato, não via motivo para queimar livros de Cascudo, que nunca foi poeta. Mas o delegado Ernani Hugo disse pra gente que podiam fazer o ato de protesto no Grande Ponto que ele garantia a segurança. Quer dizer, o nosso movimento chegou a sensibilizar parte da polícia, ao ponto do delegado dizer que garantiria a manifestação”, disse Falves. O encontro casual com Falves foi-me duplamente proveitoso, pois me informou que a festa de encerramento das atividades do famoso cabaré “Francesinha”, nas Rocas, ocorreu na noite de uma sexta-feira do inicio de junho de 1968. Eu estava lá com Luciano Cordeiro e mais alguns amigos e vi a exposição de obras de artes dos artistas e poetas concretos de Natal sendo observada e curtida por dezenas de prostitutas que lotaram o salão animado por uma orquestra que tocou o seu último baile. O cabaré foi demolido e no local foi construído o motel “Jóia”.


Luiz Gonzaga Cortez é jornalista
Pesquisador e sócio do Instituto Histórico e Geográfico do RN.
Ntas: Gilson Guanabara, Hélio “Brucutu” e Dailor Varela são falecidos. Este artigo foi escrito há mais de dez anos. Natal, 19.05.2012.

segunda-feira, 7 de maio de 2012


Manuscritos inéditos de "O Pequeno Príncipe" são encontrados na França

As duas páginas descobertas devem ser leiloadas ainda em maio

REDAÇÃO ÉPOCA
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As páginas trazem novas versões para passagens do livro e apresentam um novo personagem (Foto: AP)

Publicado em 1943, O Pequeno Príncipe é um clássico da literatura universal. Para surpresa dos leitores, duas novas páginas da obra foram descobertas na França. Parte de um conjunto de manuscritos do autor Antoine de Saint-Exupéry, os textos inéditos estavam em posse de um colecionador, e foram entregues a uma casa de leilões francesa que, a princípio, não sabia o que continham: “A caligrafia dele [Exupéry] é terrível, mas conseguimos decifrá-la e então descobrimos que essas duas páginas eram material inédito de O Pequeno Príncipe”, disse Benoît Puttermans, do departamento de livros da casa de leilões Artcurial, ao jornal britânico The Guardian. O material deve ser leiloado no dia 16 de maio.

Uma das páginas fornece uma nova versão para a passagem em que o Pequeno Príncipe chega ao planeta Terra, no capítulo 19. A segunda página, no entanto, apresenta uma personagem inteiramente nova – um homem apaixonado por palavras-cruzadas. Descrito como “o embaixador do espírito humano”, ele é a primeira pessoa que o príncipe conhece ao chegar à Terra, e não pode conversar por estar muito ocupado com seu passatempo. Falta a ele uma última palavra, de seis letras, que começa com a letra “g”. A página acaba sem que a palavra seja revelada. Mas se supõe que seja “guerre”, guerra em francês.

“Os manuscritos de Saint-Exupéry são raros, mas os manuscritos de O Pequeno Príncipe, o livro francês mais vendido em todo o mundo desde 1943, são ainda mais”, informa a Artcurial em seu site. Estima-se que as páginas atinjam um valor em torno do 50 mil euros (cerca de R$ 125 mil ). Ao longo de 63 anos, o livro vendeu mais de 140 milhões de cópias em todo o mundo, e foi traduzido para 260 idiomas. De acordo com a fundação Saint-Exupéry, trata-se da obra mais traduzida depois da Bíblia.
Praticamente desconhecido antes do livro, Exupéry morreu um ano depois de sua publicação, em um acidente de avião enquanto servia a força aérea francesa durante a Segunda Guerra Mundial em 1944.
RC
07.05.2012.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Blecaute,"eternamente flâneur, terá sido o último dandi de Natal".


Por FraFranklin Jorge*
 
O crescente interesse que desperta a vida de Blecaute entre os jovens atuais merece reflexão e análise ou, simplesmente, alguma espécie de questionamento necessário. Começou com a sua morte trágica, súbita, brutal, quando fazia um biscate, consertando a fiação de uma residência, sem nenhuma precaução ou equipamento. Morreu eletrocutado. Agora, pintam-no como um herói. Um herói literário que assombra o oficialismo de Natal. Já quiseram até degluti-lo, entronizando-o, post-mortem, num Dia da Poesia, mas se engasgaram.
Imolado pela arte, Edgar Borges – seu nome civil – vem se tornando o símbolo de algo que nos incomoda. – É, sobretudo, o símbolo da contracultura militante entre nós. Um ícone, enfim, contracultural, por excelência; alheio a privilégios, nadando contra a corrente, em permanente corpo a corpo com a vida mesquinha, foi sobrevivendo na província hostil e canibalesca, curtindo internações psiquiátricas e sevícias, até o choque final. Um ser inusitado, esse Blecaute, que nasceu e viveu em Natal, vacinado contra o convencionalismo, contra a regra, contra o reducionismo pseudo-burguês que afligiu em seus versos desconexos ou surreais. A bem da verdade, em matéria de produção, só produziu efetivamente uma espécie de mal-estar moral, ao externar a sua confiança na vida e seu desejo de viver.
Não é, como escritor, relevante. Porém possuía múltiplos talentos em estado selvagem, entre os quais a poesia, a pintura, a comunicação e, por fim, nas quais se realizou integralmente, as performances que deram notoriedade ao seu jeito gauche e excêntrico de ser, mal assimilado pelas forças de segurança, ás vezes apenas para gozo da perversidade de alguns policiais, ou, por idiossincrasia, discordarem do seu gosto por “modelitos” compostos segundo um viés estético personalíssimo, algo assim como uma grife by Blecaute.
Eternamente flâneur, terá sido o último dandi de Natal. Presente em toda a parte, sempre estiloso e elegante made in Blecaute; fazedor de surpreendentes modelitos, fazendo-se notar por sua maneira ousada e nada convencional de se vestir, ao combinar com inteligência e ousadia elementos, padronagens, cores, texturas e adereços capazes de chamar a atenção, inclusive da policia que fazia-lhe o buillyng moral, na época, ainda não reconhecido como tal nem criminalizado. A escolha dos adereços, óculos, colares, cintos, chapéus, bonés, pulseiras, anéis, lenços, sapatos. Essa profusão de detalhes deixavam a policia em alerta. Queriam sempre saber como, vivendo de biscates, vestia-se tão bem e ostensivamente exibia a sua personalidade gritante. Nunca a mesma combinação todos os dias, rezava a cartilha do esteta e estilista Blecaute. O mundo era, para Blecaute, uma permanente novidade.
Um verdadeiro horror, recordava–se, conversando em minha sala no Solar Bela Vista. Uma vez chorou contando-me o que de humilhações e sevícias sofrera nas mãos de um delegado que o prendera por destoar da moda e estar tão bem vestido quando aparentava ser um duro contumaz.
Recebia-o toda vez que me procurava e, das nossas conversas e de suas pungentes confissões extraí um capitulo do “Spleen de Natal” [1996, livro reeditado em 2001 pela Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e inspirador, desde então, de uma rica e crescente “fortuna crítica”, teve apenas o seu primeiro vvolumm publicado ate agora...], que se tornou muito lido entre os novos iconoclastas. Blecaute, se me perguntam, era um negro bem apessoado, magro, elegante, expressando-se bem, viveu uns tempos com Gardenia, que dizia ser nome de mulher e de flor. Apresentou um programa de rádio que dava conta das atividades culturais da cidade, comentava e criticava. Por algum tempo, teve audiência cativa nas noites de sábado.
Quando morreu, ninguém lhe reclamou o corpo, exceto o jornalista Flávio Rezende, e ele ficou na geladeira do necrotério por vários dias, morto insepulto. Foi ele, Flávio Rezende, que levou a peito a tarefa de organizar-lhe funerais cristãos dignos. E o fez, movendo céu e terra em Natal, para homenagear esse rei vagabundo que por algum tempo reinou sobre a cidade, curiosamente, no entanto, sempre em busca de trabalho e ocupação. Sobrevivendo numa cidade que o teria deixado “pirandélico”, transitando entre a sua casa, em Mãe Luiza, e as celas do hospital psiquiátrico. Porém sem perder o estilo jamais.
*Texto publicado em sua coluna no NOVO JORNAL


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Postado por AssessoRN - Jornalista Bosco Araújo no AssessoRN em 5/01/2012 11:18:00 AM

Cometa, um poema de Didi Câmara.


Luiz Gonzaga Cortez


Pegando carona nas crônicas publicadas na imprensa natalense, andei procurando nos meus papéis velhos, alguma coisa sobre a poetisa Didi Câmara. Encontrei pouco, mas continuo procurando as cartas que ela teria enviado para a minha mãe, Maria Natividade Cortez Gomes, sua amiga de infância, em Natal. Irmãos mais velhos me informaram que elas se corresponderam muito há 30/40 anos atrás. Didi Camara no Rio de Janeiro e Nati Cortez, como era mais conhecida, na Rua Felipe Camarão, Cidade Alta, em Natal. Quando menino, eu ouvia falar sobre duas amigas de minha mãe: Lilia Galvão e Didi Câmara. Dona Lilia eu conheci, morou em frente à nossa casa. Eu não me lembro de dona Didi Câmara, mas há quem afirme que ela visitou mamãe, aqui, na província potengina. Já achei várias cartas remetidas para ela (Nati), mas não achei as de Didi Câmara. Entretanto, encontrei uma edição incompleta da revista JURITI, editada por Aluizio Macedônio Lemos, chefe integralista de Ceará-Mirim/RN, com um poema de Didi Câmara. A revista não tem páginas numeradas nem a data da edição, mas, presumo, que seja de  novembro ou dezembro de 1938, pois traz uma notícia sobre as comemorações do 1º aniversário do golpe de estado que implantou a ditadura do Estado Novo em 10 de novembro de 1937.
Chama-se “COMETA” o poema de Didi Câmara, oferecido ao Padre Luiz Gonzaga do Monte. Transcrevo, conforme o original publicado,  o poema escrito décadas antes do nascimento do compositor e cantor Raul Seixas e do movimento dos ufologistas.       
“Nasci  numa longínqua nebulosa,
Há milhares de séculos passados,
Em pleno céo aberto e infinito.
Sou filho vagabundo dos espaços
E irmão das estrelas.
Percorro lesto distancias inauditas,
Dentro do caos profundo deixo rastros
De luz e uranolitos.
Se o que vi podesse, eu vos diria,
Dentro de minha vida luminosa,
Desde que vim da erma nebulosa,
Que já nem sei onde está...
E que foi o meu berço colossal,
Feito de ouro, verde e cor de rosa:
Em volteios gracis, qual fulgurante
Aza ciclópica de gigantesca ave.
Pelos espaços vi alviçareiros mundos,
Que giram sobre, e pelos céos profundos,
Da estrada eterna a interminável senda:
Globos acesos e volteando aos pares
Quais falenas de prata, aos milhares,
Numa dansa fantástica de luz
Toquei o solo rubro de estrelas,
Onde colhi encantos de mil cores,
A corôar minha cabeça e onde puz
Mais formosos matises, como flores.
Vi delírios de fogo, altas chamas,
Tempestades astrais, igneas tragedias,
Onde desapareceram de repente,
Os mais lindos sois.
Contemplei as batalhas siderais,
Onde cada soldado é uma estrela,
Que disputa um sistema em formação...
E seguirei sempre aventureiro de luz,
Pelos espaços infindos, eternamente abertos
Pelos céos de safira sempre azuis...
Até que um dia nessa marchar exul,
Possa tomar-me um sol no seu bojo de chama
E sepultar-me a fluida cabeleira,
Numa formosa e rubra sepultura,
Que ao choque de meu corpo ainda mais se inflar
Em torrentes de fogo pela altura!”.
Notas: As expressões “ lesto”, “exul” e “gracil” não são erros de revisão. Estão registradas no “Aurélio” há décadas, informa Nei Leandro de Castro. Eu desconhecia, mas lesto significa rápido, ligeiro, ágil  grácil é o mesmo que  delicado, delgado, fino, sutil.  Exul, o mesmo que exule, é exilado, desterrado.  Creio que o final do bonito poema seja “Em torrentes de fogo pelas alturas!”. Franklin Jorge escreveu que esteve no Rio de Janeiro, em 1970, num dia de jogo da seleção brasileira e encontrou Didi Câmara com várias amigas e que não deu importância ao visitante, mas lembra-se de que falou sobre Natal e Nati Cortez, tendo dona Didi comentado que isso é coisa muita antiga, que já passou, etc.  Tudo bem, está certo Franklin quando diz que ela não o recebeu bem. Já a minha irmã, Cecília, que reside no Rio de Janeiro desde 1974, disse-me que naquele ano, visitou Didi Câmara com mamãe e que ela recebeu muito bem, tomou chá com a gente, que riu muito quando conversaram sobre Natal da infância delas. “Pareceu uma mulher muito simpática, risonha e era amiga de amãe. Só a vi uma vez, apesar de morar bem pertinho, na Tijuca. Na ocasião, ela estava com uma filha e uma neta,que devem morar  aqui ainda, mas não me lembro do endereço dela”, disse Cecília Cortez Gomes. Didi Câmara foi da juventude feminina integralista, em Natal/RN.
Luiz Gonzaga Cortez Gomes, jornalista e pesquisador.
Texto redigido em  17.04.2010.