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sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Uma fotos com dois irmãos de Natividade Cortez Gomes


Esta foto é do arquivo de João Maria C.G. de Melo. Iracema e o seu irmão Ivaldo Vieira de Mendonça, em 1931. Iracema (falecida)  é a mãe de Márcio, Marisa,Gelson e Mendoncinha.A foto foi tirada em João Pessoa e oferecida a Manoel Genésio Cortez Gomes, em 22 de maio de 1931, conforme está escrito no verso do cartão postal. Ivaldo, que atuou na Itália, durante a guerra, faleceu no Rio de Janeiro.

sábado, 18 de agosto de 2012

Alguns poemas de Carlos Alberto Jales


Poema para um Cavaleiro Andante*

(Para meu neto Bernardo, que desde pequeno
ama o personagem de Cervantes)

I
 
Quixote, toma tua
lança e desperta o
herói que existe em ti.
Encontrarás crianças,
viúvas, doentes, homens
acorrentados, donzelas
de sonho.
Em cada pouso serás
um cavaleiro indormido ,
um anjo de ferro a
perseguir gigantes
imaginários.
Mas ao voltares,curado
de teu devaneio,o
mundo parecerá um
escárnio e os castelos
que não conquistaste
em tua Mancha querida,
servirão de abrigo para
teu coração de fidalgo
para sempre.
 
II

Triste cavaleiro,de que
alimentas tua insana
aventura?
Olha o mundo. O mundo
é isto: indiferença,desprezo,
risos de mofa,
um embuste em cada canto.
Por que prossegues,
tecelão de sonhos?
Que planuras teus olhos
alcançam, nesta Mancha
que te alucina de desertos
e aspereza?
De que encantamento és
escravo, em que estalagens
encontras abrigo, tu que
carregas as dores do mundo ?
Triste cavaleiro, volta para
tua aldeia, onde te esperam
claridade, ventos e solidão.

III

E no entanto, preferiste
este desespero lúcido, a
vida transformada
numa grande ilha,
a mesma que prometeste
a teu fiel escudeiro
e que te foi roubada
por inimigos que imaginaste.
Ainda assim, voltaste
para casa e no delírio
que findava,vislumbravas
as vitórias que não al-
cançaste, as donzelas que
te desprezavam
E no teu peito dilacerado,
Como um veleiro
Há muito desaparecido,
encontras um porto deserto
e silencioso que te recebe como náufrago de todos os desastres.

IV

Velho feiticeiro ( não transformaste
gigantes em moinhos de vento?)
a pátina do tempo
não corrompeu teus
olhos de fogo.
Aceitaste teu destino
de criador de mitos,
fizeste das tardes
de tua Espanha
calcinada a moldura
de tuas utopias.
Jamais abandonaste
a dor de viver, pois
sabias ( todos sabiam )
que navegavas, tardo
e silencioso por
um mar intemporal.
V
Nunca desataste
os sonhos. Em
teu rosto ,um sol
de espanto brilhava.
Não querias ( mas
aceitavas ) os horizontes
emparedados, o riso
das aves, o espelho
que nunca refletia
os presságios.
Mas eis que te
calaste.E do teu
silêncio brotaram
lágrimas e arrependimentos

* Madrid, em 21 de março de 2005, nos quatrocentos anos da publicação de D. Quixote de la Mancha.



Elegia para um irmão
I

Agora, irmão, estás completo
em teu pequeno reino sem fronteiras.
As borboletas não te reconhecem,
os pássaros não constróem
seus ninhos,
mas teu sono profundo
conduz nossa vida.
Onde tuas mãos de poeta?
Onde teu sorriso de ironia
desenhando o mundo?
Onde teu jeito de profeta
tecendo os ritos da fraternidade
e as respostas que sempre procuraste?

Agora cumpriste o círculo e

empunhas o mistério como um
troféu de quem tudo compreendeu.
Agora, irmão, estás completo em
teu pequeno reino sem fronteira, enquanto
a vida nos fustiga e aprisiona
em seus dias de chumbo.
 
II
 
 Da janela onde estou
ainda te escuto.
Tua voz de profeta calcina
a terra,onde lobos e cordeiros
convivem.
Teu riso claro apascenta a
tarde com que tanto sonhaste,
se o sonho ainda é possível
no teu peito despedaçado.
Mas se te escuto,também
me espanto de não atender
a teus apelos de poeta,pois,agora,
irmão,todos os dias são inúteis,
Como tudo mais.
Só as aves, nos seus ninhos de
pedra,compreendem tua partida.
 
 
III
 
 
E no entanto, preferiste o
exílio de onde vem esta
vaga música e o silêncio
de claustro que tudo invade
E tudo corrompe.
Arados já não sulcam
os campos,
aves de rapina já não
consolam as presas,
o mar já não devolve seus
náufragos às praias desertas.
E no entanto, preferiste
o exílio a este tempo
de dor dissimulada,
esta ânsia de ouvir
os tardos bois e seus mugidos,
o florir de uma adaga de vidro.
E no entanto,
na manhã entressonhada,
teu regresso embala nossa vida.
 
 IV
 
 De silêncio nos
feriste
E no entanto, tua
voz ecoa nesses ermos
como a lição de um
adivinho nos ensinando
a intensidade das coisas.
Em que ignota galáxia
passeias teus sonhos,por
que caminhos conduzes
tua nau, se mares e
portos não te reconhecem?
De silêncio nos feriste,
pousas teus
olhos nos que não te alcançam,
neste deserto que te recebe
com chuva e estrelas.
 

V

 
Estou cansado de te esperar.
Mas te espero. E sei que
não voltarás. E no entanto,
voltas a cada instante,
nas caminhadas dos homens,
no lamento da mulher solitária,
no vôo do pássaro que perdeu
seu rumo, no medo da criança
( que somos ) , em conviver com
seus fantasmas.
Estou cansado de te esperar,
com a ansiedade de amantes,
com a esperança de náufragos,
porque acima de tudo voltaras
para nos redimir desta dor
de órfãos para sempre.




Poética
( Para Vanildo Brito, poeta maior)
 
I

Em uma nesga de nuvem
eu te procuro, poesia!
Em uma nesga de nuvem ou
em alguma dessas coisas
a que ninguém dá mais
importância:
um sorriso no escuro
o vento farejando a face
um mastro de navio perdido
no horizonte.
E quando não te encontro,
eu te procuro nos ermos
dos caminhos, sentindo a
emoção de te encontrar afinal
nesses velhos e abandonados
casarões...

II

Eu te perdôo, poesia,
as longas noites de insônia
à espera da palavra inaugural.
Eu te perdôo essa leveza, essa
vontade de ver os lírios crescerem
na solidão das madrugadas.
Eu te perdôo e te agradeço
a sensação de me sentir, às vezes
completo e simples como o pão.

III

Eu te acalanto, poesia
desde a mais terna infância
e te preparo as armadilhas
mais antigas:
um canto de galo
um resto de madrugada
o luar batendo num velho casarão.
E depois que te enlaço nos fonemas
da ternura, tu me devolves as emoções
mais secretas, e me ofereces
o milagre único, continuamente
renovado, de um momento de silêncio



Frustração
Quis construir um poema
sólido como um edifício,
formal como um funcionário
público,
hermético como um pássaro.
Quis construir um poema
que fosse a síntese
de todas as gramáticas
e possuísse a rigidez de um carva-
lho.
Vão desejo! Saiu-me da boca
um sopro de flauta,
um retrato em preto e branco,
um velho monge rezando
à sombra de um claustro...




Recado


Quando quiseres me amar
não escolhas tempo nem lugar.
Quando chegares, diremos baixinho
o soneto de todos os amantes.

Faremos de nossos dedos

demiurgos recriando a noite,
em régua e compasso transformaremos nossas mãos.
Inventaremos uma geometria do amor:
procuraremos a linha reta de nossos olhares,
apararemos as arestas de nossos corpos,
em quinas e ângulos uniremos nossas bocas,
e num ponto qualquer fixaremos o azulado
das manhãs.
Quando quiseres me amar,
não escolhas tempo nem lugar.
Deixarei a porta aberta, a casa limpa,
uma saudade te esperando em cada canto.

Carlos Jales lança mais um livro de poesia.

O poeta natalene Carlos Alberto Jales (à direita), ex-irmão marista em Natal, no tempo de Décio Caldas, lançou ontem, na livraria da UFRN, op seu 3º livro de poemas "Àspero Silêncio", com prefácio da poetisa Carmen Vasconcelos. Carlos Jales, irmão de Jales Costa (in memoriam), Sales, Pedro, Eduardo e Marcelino, é professor aposentado da Universidade Federal da Paraíba.Breve, iremos inserir um poema do autor.

Otaviana Jales, Willington Germano (presidente da cooperativa) e Carlos Alberto Jales.